Capitu, Anatomia de uma Queda e o sofrimento da dúvida
Paola Farina
Capitu traiu Bentinho? A esposa, em Anatomia de uma queda, empurrou o marido? Acredito fielmente que a ficção pode trazer muito mais da realidade do que um filme sobre história real ou uma biografia, justamente porque lida com temas específicos do ser humano que uma história real dificilmente contemplaria com tanta verdade. Na ficção, não há o medo do julgamento de ter sua vida exposta, e, assim, a realidade é escancarada.
No caso de ambas as ficções, o que se escancara é a dúvida.
E isso incomoda profundamente.
O ser humano tem uma necessidade visceral de compreender, concluir, fechar ciclos. Nossas emoções precisam de uma história coerente para se acalmar. Precisamos de culpados, de vítimas, de sentenças. E quando a verdade não se revela com nitidez, criamos versões que nos consolam, ainda que não haja evidência alguma daquilo que estamos apontando como verdade.
Bentinho, por exemplo, nunca teve certeza.
No romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, acompanhamos um homem já envelhecido que decide contar a própria história para provar, ao leitor e a si mesmo, que foi traído por sua esposa, Capitu. Mas tudo o que temos são suas lembranças — subjetivas, ressentidas, desconfiadas. Não há nenhuma prova concreta. Só um olhar, que, talvez influenciado por outra personagem da trama, ele julga oblíquo e dissimulado. Um ciúme que vira obsessão. E um livro inteiro escrito não para revelar a verdade, mas para nos revelar o poder da dúvida.
Sua dor não está na traição — está na incerteza. E o que não se pode provar se transforma, com o tempo, em fixação.
O filme Anatomia de uma queda (Justine Triet, 2023), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, nos coloca diante de uma situação parecida, mas no tribunal. Uma escritora é acusada da morte do marido, que caiu (ou foi empurrado) da varanda da casa onde viviam com o filho. A narrativa gira em torno de provas inconclusivas, testemunhos contraditórios e interpretações ambíguas — inclusive sobre o passado do casal, suas discussões e silêncios.
A dúvida não é só do tribunal, nós também somos convidados a duvidar. O filme nos recusa a catarse. Nos força a conviver com a ausência de resposta. Isso é insuportável para muita gente, e é exatamente o que torna a obra brutalmente honesta.
Porque assim é a vida: cheia de pontos cegos, falas interrompidas, versões contraditórias. A realidade, quase sempre, é um quebra-cabeça com peças faltando. E, em vez de aceitar a incompletude, preferimos culpar, supor, ou mesmo escrever uma narrativa interna onde alguém nos deve algo — um pedido de desculpas, uma confissão, uma confirmação.
Mas a verdade é que há dores que não se resolvem. Algumas pessoas nunca dirão por que foram embora, alguns amores nunca serão esclarecidos, alguns episódios da nossa história permanecerão envoltos em silêncio — e talvez o maior gesto de flexibilidade emocional seja não transformar a dúvida em sentença.
A dúvida é incômoda, mas a certeza inventada só nos traz a ilusão de um conforto. Nem toda dor precisa de um culpado — às vezes, ela só precisa ser sentida.
Se isso fala com algo que vive em você, talvez seja hora de conversar com alguém que não queira te dar respostas prontas, mas te acompanhe na travessia dessas perguntas que ninguém pode responder por você.